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Comunicar em tempos de polarização

Marcus Tullius, coordenador da Pascom Brasil, falou ao Fraterno 72


Foto: Joka Madruga/Fraterno72


Por Sandra Nassar

O maior encontro de comunicadores católicos do país, o Mutirão de Comunicação 2023 (Muticom), terminou neste sábado (16), em João Pessoa (PB), com a celebração da Santa Missa e o anúncio da sede do encontro do próximo ano. O Muticom reuniu durante quatro dias, mais de 400 pessoas, entre profissionais, agentes pastorais e representantes da Igreja, além dos 70 participantes on-line, para uma grande reflexão sobre comunicação e a cultura do encontro.

O coordenador da Pascom Brasil, Marcus Tullius, um dos participantes do Muticom, falou ao Fraterno 72 sobre o tema do encontro diante dos desafios dos comunicadores católicos, traçou um panorama do trabalho das pastorais de comunicação no Brasil, o novo diretório de Comunicação da Igreja e as perspectivas para o Sínodo dos Bispos, que começará em outubro próximo. Confira a íntegra da entrevista do coordenador:

Fraterno72: Como você analisa a escolha do tema do Muticom, comunicar para a cultura do encontro, diante dos desafios atuais dos comunicadores católicos} Por que a escolha desse tema}

Marcus Tullius: Há, pelo menos, duas razões principais. A primeira, é que neste ano celebramos os 10 anos de pontificado do Papa Francisco, então foi a forma que encontramos de retomar o conceito, o desejo que é muito caro ao papa Francisco, que é a promoção da cultura do encontro. Encontramos neste tema a síntese do magistério do Papa Francisco, especialmente na comunicação. A segunda razão é que, depois dessa prolongada pandemia que tivemos, e especialmente pela impossibilidade de realização do Muticom presencial em 2021, este ano seria o nosso reencontro. Então, nada melhor do que pensar a cultura do encontro num mutirão que já é em si uma experiência de viver a cultura do encontro. Por isso decidimos unir a prática de nos encontrarmos com uma reflexão que também ajudasse a pensar nesta importante missão dos comunicadores católicos de promover a cultura do encontro.


F72: A cultura do encontro nos remete à unidade, uma questão que nunca foi tão urgente em tempos de tanta polarização como a que vivemos no Brasil. Como os comunicadores católicos podem agir para promover essa unidade}

MT: Veja, as escolhas dos temas das conferências e seminários do Muticom buscaram exatamente fazer essa recomposição social, na certeza de que os comunicadores têm condições de promover isso, a cultura do encontro, por meio da amizade social, da comunhão dos cristãos, da influência deles no ambiente digital, no cuidado com a casa comum, com a preocupação com o bem viver, na cultura do diálogo. São todos temas e expressões utilizados pelo Papa Francisco e que estavam presentes nas conferências do Muticom, justamente para destacar que é no cotidiano, no dia a dia, que essa cultura do encontro acontece.

Foto: Joka Madruga/Fraterno72


F72: Sendo coordenador nacional da Pascom Brasil, que panorama você faz da atuação das pastorais da comunicação país afora} Houve um crescimento nos últimos anos, por causa da pandemia} A importância dessa pastoral está consolidada}


MT: Seguramente há uma maior compreensão na Igreja sobre a importância da Pascom. Falando em tempos de pandemia, tivemos, primeiramente, um crescimento numérico de experiência de comunicação. Mas nem tudo que surgiu durante a pandemia foi imediatamente Pastoral da Comunicação. Em alguns casos, a experiência surgiu só pra suprir uma necessidade, devido ao fechamento das igrejas. Porém, a prática, as atividades ali desenvolvidas foram dando essa tônica, esse caráter pastoral ao trabalho. Então, depois desse crescimento numérico, tivemos um crescimento da qualidade e da compreensão do que é Pastoral da Comunicação. Hoje temos 279 dioceses e arquidioceses no Brasil, das quais 220 têm um contato de coordenação constituída de Pascom. Agentes de Pascom, temos no mínimo de 7 a 8 mil, contando o que estão cadastrados na Pascom Brasil. Isso mostra que o crescimento numérico agora vai se configurando nessa tônica pastoral, porque não adianta só fazer, é preciso ter algum sentido pastoral, evangelizador, para que o trabalho se constitua realmente como pastoral da comunicação.

F72: Tem algo encantador e motivador nas Pascom, que é a participação de leigos não profissionais da comunicação, que encamparam firmemente essa missão. Esse é um fator que comprova a dimensão do trabalho da pastoral da comunicação numa paróquia}

MT: Comprova, sim, a dimensão desse trabalho e configura uma realidade brasileira. Pelo que conhecemos e mantemos de diálogo com outros países da América Latina, a única igreja que tem uma comunicação organizada, com sentido pastoral, e formada por não profissionais da área, é a do Brasil. As demais igrejas se assustam e se encantam quando conhecem essa realidade, feita de uma maneira muito capilar, porque às vezes você tem uma comunicação institucional que não chega nas bases, e a Pastoral da Comunicação consegue chegar na base, porque ela está lá. Então, esse é o grande diferencial dessa comunicação organizada e esperamos que essa mentalidade possa de solidificar e se configurar cada vez mais na nossa igreja. E não tem mais como voltar atrás. O que foi conquistado até hoje está consolidado. A pandemia veio como que selar um processo que já estava em fase de configuração. Quem já tinha Pascom estruturada, viu que estava no caminho certo. Quem não tinha, percebeu que precisava ter.


F72: Você participou da elaboração da nova versão do Diretório de Comunicação da Igreja do Brasil. As atualizações respondem melhor às angústias e aos desafios dos comunicadores católicos}

MT: Sim, a versão atualizada responde aos desafios atuais da comunicação. Essa nova dinâmica traz principalmente o ambiente digital, já que a primeira versão foi escrita há 10 anos, e nesse período muita coisa mudou na comunicação. O processo acelerou-se demais. Nós somos a última geração de pessoas que conheceram a comunicação antes de ambiente digital em redes sociais. Hoje, a gurizada que está aí já nasceu nesse ambiente. Então, o novo diretório busca dar respostas também a esses desafios, pensando em como a Igreja pode contribuir com esse processo, que se tornou social. E a Igreja, enquanto ser no mundo também tem que conhecer esse ambiente, tanto que o primeiro capítulo do diretório trata exatamente da comunicação na igreja e no mundo em mudanças.

F72: Falando em mundo em mudanças e voltando ao desafio de promover a cultura do encontro, você tem boas expectativas em relação ao Sínodo dos Bispos e o caminho rumo a uma Igreja sinodal}

MT: Tenho sim, boas expectativas. Sou muito esperançoso em relação ao Sínodo. Acredito que alguns processos vão ser mais lentos, até seria preciso que fossem mais ágeis, mas isso exige primeiramente mudar mentalidades, romper com alguns paradigmas há muito cristalizados pelo Cristianismo e a estrutura da Igreja, o que vai levar ainda algum tempo. Mas é um bom passo. Acredito que o Sínodo vai escancarar muitas portas e espero que seja uma retomada daquilo que configura o nosso jeito de ser Igreja.

F72: Até porque o processo de construção do Sínodo foi baseado numa ampla consulta, a pedido do Papa Francisco, uma escuta que pretendeu ouvir todo o povo de Deus, o que mobilizou toda a Igreja, não foi}


MT: Sim, foi o que chamou muita minha atenção no Sínodo, porque a experiência sinodal é uma experiência eclesial, mas que passa pela comunicação, porque, para caminhar junto, você precisa escutar o outro, olhar nos olhos do outro. E porque a própria reforma que o Papa Francisco fez na Cúria Romana começou pela comunicação, ou seja, é preciso pensar: não dá pra caminharmos juntos, se tivermos uma experiência de comunicação que não caminha junto. Por isso, acredito que o Sínodo, primeiramente, é uma experiência de comunicação, tanto que o papa estabeleceu a escuta como primeira etapa do Sínodo e ele também diz frequentemente aos comunicadores, nos itinerários que faz das mensagens dos dias mundiais das comunicações, principalmente nos três últimos, é exatamente isso: recuperar a capacidade da escuta. É preciso escutar com o coração. Quem quer falar, precisa primeiramente escutar, recuperar a condição da essência da comunicação. E o sínodo está exigindo isso de nós. Não somente recuperar a capacidade da escuta. É mais do que isso: é reaprender a capacidade de nos escutarmos mutuamente.


Marcus Tullius autografa livro durante Muticom 2023. Foto: Joka Madruga/Fraterno72


Foto: Joka Madruga/Fraterno72


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