A mão no pescoço e a coragem de desarmar o coração
por Irmão Gutto*

Pedro aproxima-se de Jesus com a prudência de quem tenta colocar a misericórdia em uma conta exata. Sete vezes parecia um número generoso, uma margem alta para a paciência humana. Mas a resposta de Jesus rompe com a contabilidade do ego para nos lançar na desproporção do Reino. O perdão não é um exercício de cálculo, é uma postura de vida, o próprio modo de Deus respirar na nossa história.
A parábola do credor incondescendente desenha o retrato doloroso do nosso tempo. Vivemos mergulhados no paradoxo de um mundo hiperconectado pela tecnologia, mas terrivelmente analfabeto no afeto e no diálogo.
Nunca fomos tão capazes de emitir opiniões rápidas e, ao mesmo tempo, tão incapazes de escutar com profundidade. A cena do homem que é perdoado de uma dívida impagável e, em seguida, agarra o seu semelhante pelo pescoço por causa de cem moedas é a imagem viva da nossa sociedade sem espaço para a fragilidade. Sufocamos uns aos outros com o peso das expectativas, a rigidez do julgamento e a pressa do cancelamento. Exigimos do próximo uma perfeição que nós mesmos não temos para oferecer, esquecendo-nos da vastidão de graça que nos sustenta todos os dias.
Esta palavra não se dirige apenas aos muros dos Institutos Religiosos ou às estruturas eclesiais; ela alcança a humanidade de todo batizado. Ser cristão em um mundo árido significa aceitar o risco da vulnerabilidade. O perdão de coração não é um imperativo moralista ou uma simpatia ingênua, mas um ato visceral e profundamente teológico: perdoamos porque fomos primeiramente perdoados, amamos porque a nossa existência é fruto de uma misericórdia que não nos cobrou a conta.
Na travessia desta humanidade machucada, a figura de Maria se ergue como ícone da nossa vocação batismal. Maria habitou um tempo de opressão e violência sem permitir que o seu coração se tornasse uma fortaleza de pedra. Diante da dor, do incompreensível e até da barbárie que crucificou o seu Filho, ela não reagiu com a agressividade do mundo nem cobrou dívidas morais. Guardou e ponderou no coração. O silêncio de Maria ao pé da Cruz foi o ventre que acolheu o perdão de Cristo sobre a humanidade.
Aprender com Maria é recusar a tentação de sufocar o outro. É entender que a verdadeira revolução do Evangelho começa no instante em que abrimos as mãos, soltamos os pescoços que segurávamos com rancor e transformamos os nossos encontros cotidianos em lugares de respiro, paciência e recomeço.
*Irmão Gutto é marista e jornalista











Comentários